quinta-feira, 9 de julho de 2009

24) Trussardi (Trussardi)


UMA DECISAO RESOLUTAMENTE MODERNA

Foi o couro que constituiu a primeira atividade de Trussardi, célebre família de luveiros italianos, cuja primeira oficina foi aberta no início do século XX e que rapidamente adquiriu fama internacional. Nicola Trussardi começou por criar malas de mao e de viagem, pequena marroquinaria e cintos, antes de se encontrar noutros domínios de expressao no campo do design contemporâneo. Tendo escolhido a lebre como emblema para assinar todas as suas realizaçoes, lançou-se igualmente no prêt-a-porter e na perfumeria, concebendo ainda interiores de automóveis e de avioes de linha, mobiliário e mesmo guarda-roupa para bailado-
Para o seu perfume feminino, batizado simplesmente com o seu próprio patronímico - como o fazem frequentemente os criadores italianos, a exemplo de Armani e Azarro, de Gucci ou de Missoni -, Nicola Trussardi imaginou um frasco sóbrio e achatado, revestido de um material branco, a imitar pele de lagarto. O medalhao de couro, com a efigie de uma lebre, destaca-se perfeitamente ao centro: a pureza funcional deste frasco resolutamente moderno entra em ruptura flagrante com a tradiçao dos frascos de vidro ou de cristal talhado, sobretudo no que respeita aos perfumes femininos.O estilo de Trussardi é frequentemente é marcado por uma tecnicidade vanguardista.
Para a mulher, que imagina activa, segura de si mesma, sem deixar de ser bastante feminina - estamos em meados da década de 80 - Trussardi idealizou um perfume chypré, floral composto de jasmim e de mimosa de Grasse, de tangerina de Sicília, de laranja de Calábria e de musgo de carvalho da ex-Jugoslávia; o âmbar, o vetiver e o patchulí conferem-lhe a profundidade e a tenacidade, enquanto a tuberosa e as rosas lhe dao asas.
As notas de cabeça partem da riqueza de um bouquet floral, preservado pela frescura profunda do musgo de carvalho, sendo o coraçao deliberadamente chypré, enquanto o fundo amadeirado vem impor uma soberba esteira de sândalo.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

23) Ho Hang (Balenciaga)

O PERFUME DA HARMONIA

Vetiver e cedro da Virgínia, bergamota e sândalo, coentro e noz-moscada: a composiçao deste "perfume para homem", lançado em 1971 sob a marca do grande costureiro espanhol, classifica-o sem hesitaçoes na categoria dos amadeirados com especiarias. Esta família típica agrupa essencialmente as notas masculinas, retiradas das essências de madeira exóticas, realçadas de toques hisperídeos e de pormenores mais calorosos, conferidos pelas especiarias. Depois de Brut e de Eau Sauvage, em 1966, o mercado de perfumes para homem tornou-se, em poucos anos, extraordinariamente vivo e diversificado, podendo mesmo uma fragrância servir para alguém se valorizar socialemente. A imagem da virilidade constituía sempre um fator capital (Balafre, Drakkar ou Safari falam de homens musculosos e bronzeados, de esportes violentos e de grandes espaços), mas o mercado evoluiu rapidamente para uma gama mais matizada: um homem era também (nunca deixa de ser) elegância e distinçao, requinte e circunspecçao, o que significa um regresso a valores estéticos que um dandy jamais poderia renegar, pois este considera os cuidados corporais um dos rituais mais sérios. Neste aspecto, Ho Hang é emblemático, pois a respectiva mensagem sublinha que "pretende ser o perfume da harmonia, o do equilíbrio masculino feminino. Repousante após o esforço, estimulante durante o dia, Ho Hang é uma água de toilette de raça, aliada fiel do homem moderno que, prezando a elegância discreta e requintada, quer deixar à sua passagem um ambiente de frescura e de leveza".

22) Pour un homme (Caron)


Um símbolo de luxo e de audácia

Entre os numerosos nomes célebres da marca Caron, Pour un homme é um dos mais importantes. lançado em 1934, esta água de toilette com perfume e alfazema, tao deliciosamente abaunilhadas, na época pareceu bastante audaciosa por se destinar precisamente "para um homem". No início do século XIX, quando se deu início à ascensao da perfumeria francesa, apenas se considerava no campo das fragrâncias masculinas os aromas puros, simples e tônicos, dominados pelo musgo, pelo cedro ou pelo feto, quando nao se tratava simplesmente de água-de-colônia ou de alfazema bem natural, sem acentos ambarinos, florais ou almiscarados. Ora, Pour un homme constituiu um verdadeiro golpe de teatro: primeiro perfume para homem de antes da guerra, ousou aventurar-se por uma via olfativa que até entao estava reservada à mulher. Que se poderá imaginar de mais voluptuoso, de mais onírico, de mais suavemente exótico, enfim, de mais feminino do que a baunilha? Esse aroma que se assinala de imediato, como por exemplo, no celebre Habanita de Molinard. Sem qualquer alteraçao desde a data em que foi criado, Pour un homme ultrapassou o desafio de associar as alfazemas mais frescas com um trio avassalador constituído pelo âmbar, pelo almíscar e pela baunilha. Num livro dedicado à Caron, Maurice Rheims refere, no prefácio, que Pour homme continua a ser antes de mais um "perfume contemporâneo pelo seu aroma, poder-se-á dizer, e pela forma do frasco", quadrado, arredondado nas arestas, equilibrado, à imagem, aliás, do mobiliário da década de 30 do século transacto, símbolo de luxo e de audácia, de depuraçao e de requinte.




21) Arpège (Lanvin)



A ELEGÂNCIA DE UMA MELODIA PERFEITA

A mais velha de onze irmaos, Jeanne Lanvin, a quem Louise de Vilmorin chamaria "a encantadora", começou a trabalhar aos onze anos como paquete e depois como costureira e modista. Foi aos 18 anos que começou a trabalhar por conta própria. Em 1895, casou-se com um membro da nobreza italiana. Marguerite, que nasceu dessa uniao (a qual, aliás, duraria apenas 8 anos), desempenharia mais tarde um papel proeminente na alta sociedade parisiense sob o nome de Marie-Blanche de Polignac. Transmitiu principalmente um novo sentido à trajetória de Jeanne Lanvin e à orientaçao de sua criaçao. O amor que nutriu pelas crianças fê-la criar roupa de cores suaves e alegres, acrescentando depois uma linha para crianças. Primeira criadora da sua época a pensar em todas as faixas etárias, com roupa concebida especialmente para cada uma delas, introduziu assim a juvenilidade na moda. O azul Lanvin tornou-se tao célebre como os cortes simples e inovadores, os tecidos fluidos e os coloridos frescos. A partir de 1926, Jeane Lanvin interessou-se também pela moda masculina e fez da sua casa a primeira a dirigir-se a toda a família. Entao, no ano seguinte, numa época em que já era uma grande rainha da moda, a única rival de Coco Chanel, lançou um perfume, o mítico Arpège nascido do desejo de oferecer à filha Margueritem que se tornara uma pianista famosa, um perfume pelos seus 30 anos, "um perfume que dê às mulheres o que a música transmite à vida", segundo as sua próprias palavras. Nesta época, Jeanne Lanvin lançara já uma dezena de perfumes, entre os quais o famoso "My Sin", muito floral, em 1925. Possuía a sua própria fábrica e o seu nariz era o famoso André Fraysse, entao com vinte e cinco anos (criaria mais tarde, em 1933, sempre para Lanvin, o sulfuroso Scandal, que nunca conseguiria destronar Arpège). Raramente um perfume foi mais bem batizado do que este, um floral aldeído, com um bouquet de mais de sessenta componentes, entre as quais a rosa, o sândalo, o almíscar, o jasmim, o lírio-do-vale, o neroli, a bergamota, o vetiver, a íris e a baunilha. A palavra "harpejo" (que vem do italiano arpeggio, "tocae harpa") designa em música um acorde de notas dedilhadas rapidamente: nao se conseguiria descrever melhor esta fragrância poética, elegante e melodiosa, leve como poucas. Armand Rateau, célebre artista da época, que já decorara a residência particular de Jeanne Lanvin, na Rue Barbet-de-Jouy, foi encarregado de criar o frasco, decorado com uma tampa cinzelada: a idéia genial da célebre "bola preta" (que, aliás, originalmente era de um azul profundo, caaro a Jeanne).
O desenho de Paul Iribe, estilizado no espírito Art Déco, representa a mae e a filha em traje de baile, segurando nas maos uma da outra: jamais deixaria de ser a imagem da marca da casa Lanvin.
Desde que foi lançado, Arpège fez a unanimidade. Louise de Vilmorin, para quem era o perfume favorito, descreve-o como "um perfume vivo, milagre da elegância", que "dedilha um bouquet de notas frescas e quentes", "um achado prodigioso, que cheira simultaneamente a flores, a frutos, a peles e a folhas". Colette, no qual lhe diz respeito, acha-o "de um gosto bastante atual". À primeira vista, acrescenta, "tem um ar louro, embora possa parecer que sao as peles morenas que lhe conferem todo o seu poder".

sexta-feira, 5 de junho de 2009

20) Bal à Versailles (Jean Desprez)

O mundo perfeito do luxo extremo...

No mundo da alta perfumeria francesa, Jean Desprez ocupa um lugar à parte, nao só porque se trata de um perfumista no sentido estreito do termo - trabalhou como nariz para outras casas no início do século XX, antes de fundar a sua própria companhia em 1928 (actualmente dirigida pelo filho) -, mas também porque as suas criaçoes se inscrevem deliberadamente no mundo do luxo supremo. Depois de ter criado o capitoso Crêpe de Chine para Millot, lançou sob seu nome, na mesma linha chiprée floral, o mundo clássico Étourdissant, em 1939. Rodeado de artistas famosos, que desenham para os seus perfumes recipientes e frascos sumptuosos, por vezes tao dispendiosos que nao sao comercializados. Jean Desprez é uma daquelas pessoas que consideram o perfume uma verdadeira obra de arte, nada poderá ser suficientemente belo para o conter ou valorizar. Bal à Versailles, perfume ambarin, floral, com toques de especiarias, lançads em 1962, mas que se situa na categoria dos grandes perfumes sedutores e pertubantes da década de 20, constitui a mais perfeita ilustraçao do supracitado. Encontram-se as essências naturais mais nobres na sua composiçao: jasmim de Itália e do Egito, rosas de Bulgária e da Turquia, flor de laranjeira de Marrocos, cássia de Provença, sândalo e vetiver de Java, gomas e resinas do Oriente, âmbar dos mares austrais. É toda uma panóplia do perfumista de grande tradiçao que se exprime nesse líquido, cuja notoriedade jamais deixará de estar ligada a uma imagem de grande requinte. Sete anos após a criaçao de Bal de Versailles, Jean Desprez recorreu ao seu amigo escultor Léon Leyritz para que este criasse um frasco de porcelana de Sèvres com uma tampa de ouro e de prata, apresentado num estojo de pele e de veludo dourado com folha de ouro.

sábado, 2 de maio de 2009

19) Habanita (Molinard)

UM PERFUME EMBRIAGANTE

Fundada em 1849, em Grasse, a casa Molinard foi sempre uma empresa familiar até os nossos dias. Depois de ter fabricado água de flores e águas-de-colônia, que vendia na pequena loja no centro da cidade, começoou a desenvolver-se. Quatro bonitos perfumes uniflorais apareceram entao em elegantes frascos de Baccarat: Jasmim e Rose e, mais tarde, Mimosa e Violette. Em 1900, Gustave Eiffel concebeu o esqueleto da fábrica que foi construída na entrada da cidade, enquanto os ricos clientes russos e ingleses íam escolher os perfumes florais num soberbo salao de recepçao, mobiliado à moda antiga. O ano de 1921 marcou o início da expansao da casa, que nao deixaria de crescer, com a criaçao do famosíssimo Habanita, quente e abaunilhado, um perfume típico dos Anos Loucos, que alcançoou um êxito inigualável. Incitando os mais célebres mestres vidreiros a criarem frascos exclusivos para os perfumes da casa, Molinard esteve na origem das mais belas peças assinadas por Lalique. Fornecedor, no seu tempo, da rainha Vitória da Inglaterra, Molinard continua a vender na sua loja parisiense da Rue Royale águas-de-colônia "envelhecidas na cave" e os encantadores concretas, perfumes sólidos apresentados em pequenos cofres pretos pintados à mao. Todavia, os verdadeiros apaixonados por Habanita fazem a viagem até Grasse para irem a comprar sua fragrância envolvente no próprio local em que é concebida,a partir do patchuli de Penang e do sàndalo da Índia, da baunilha do Taiti e do âmbar-cinzento, do musgo do carvalho e do cisto do Tibet, um bouquet exótico, persistente e forte, adocicado pelas notas florais do jasmim e da rosa.



Originalmente, Habanita fora concebido para perfumar os cigarros das mulheres "arrapazadas" com um aroma penetrante e delicioso.











Foto improvisada das minhas "concretas", conseguidas num leilao depois de muito buscar.(Arquivo pessoal)

18)Tocade (Rochas)

UM IRRESISTÍVEL AMOR À PRIMEIRA VISTA

O ano de 1994 viu florir um grande número de perfumes, aos quais, aparentemente, estava prometido um futuro brilhante, sendo a colheita das fragrâncias particularmente diversificada. Para citar apenas os mais célebres, a amostragem vai de Eden de Cacharel, oriental, floral, e aquático, a Deci Delà de Nina Ricci, um arabesci chypré, frutal e floral, sem esquecermos o deliciosos Petit Guerlain, fresco e perfumado como o orvalho matinal. Prova de que as grandes marcas sabem renovar-se nas diversidade. Com Tocade, lançado pela Rochas nesse ano, entramos na era dos perfumes "lúdicos". Em primeiro lugar, evidentemente, o cheiro era perfeitamente conseguido: uma pequena maravilha floral e ambarina, em que a rosa desabrocha sem quaisquer pressas, escoltada pela magnólia, plea bergamota e pelo gerânio, com um toque de baunilha numa esteria cálida de benjoim, de cedro, de âmbar e de almíscar.
Porém, além disso, o designer Serge Mansau inspirou-se nos mestres vidreiros de Veneza para inventar frascos que pudessem ser completados por diferentes tampas, ao sabor do estado de espírito e das cores: gargalo vermelho e tampa amarela, gargalo azul e tampa vermelha, gargalo vermelho e tampa verde. Originalidade de conceito, a que acrescenta outra idéia moderna: os frascos sao recargáveis (consequentemente menos dispendiosos) e, sob a forma de vaporizadores, passam facilmente do banheiro para a mala de mao e vice-versa. Tocade ou uma idéia forte e original, "o apetite pela vida", dirige-se à mulheres espontâneas e maliciosas, que vivem as suas paixoes, os seus amores à primeira vista, loucura..
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(Exposiçao na Bélgica de propostas de packaging, neste caso, de Tocade.)

Um frasco puro e elegante, de formas arredondadas e generosas, coroado por um diadema atrevido de cores vivas e transparentes.



Rosa, baunilha e âmbar, é este o acorde inédito de Tocade.